quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A incrível saga de William Adams, o samurai ocidental

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Antes de mais nada, existe uma discussão se um Hatamoto (veremos logo o que significa) é realmente um samurai, mas como não sou historiador e ele possuía o direito de portar uma espada, cujos únicos donos poderiam ser samurais, então, no sentido prático, ele era um samurai.
Mas quem diabos era esse samurai ocidental?
Bem, o navegante inglês William Adams (1564-1620) foi o primeiro e um dos únicos ocidentais a receber o título de samurai, dado pelo próprio Tokugawa. O romance best-seller “Shogun” de James Clavell baseia seu protagonista, John Blackthorne, em William, além disso, o inglês é até hoje a grande referência ocidental de um não japonês samurai.
Ele chegou ao Japão em 1600, na época, as Provinciais Unidas (Países Baixos) travavam sua guerra de independência contra os espanhóis, que dominavam o sul da atual Itália, os atuais Bélgica e Países Baixos (Holanda) e haviam forçado Portugal à submissão através da União Ibérica. Por sua vez, os neerlandeses eram aliados dos ingleses, que também eram protestantes e inimigos da católica Espanha, o complexo sistema de alianças religiosas/políticas e vassalagem tornava os aliados históricos Inglaterra e Portugal inimigos pela primeira vez na história. Adams e sua missão foram muito afetados por essa dinâmica, já que tanto Católicos (ibéricos) quanto protestantes (anglo-saxões e batávios) expandiram suas guerras para o resto do mundo.
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A missão de William Adams estava no contexto da (Primeira) Guerra Anglo-Espanhola (1585-1604). A tela acima retrata a Invencível Armada Espanhola sendo vencida .

Adams seria enviado em uma missão de alto risco e ultra secreta para o oriente, onde deveria comercializar preciosos itens industriais em troca das riquezas únicas da Ásia Oriental, como a porcelana e a seda.
Seu navio, de bandeira neerlandesa e único sobrevivente de uma esquadra de 5 que tinha zarpado para o oriente, tinha vários bens que deveriam ser comercializados com os asiáticos, sua carga principal eram 19 canhões pesados, 500 mosquetes e munição, além de pregos, martelos e outros utensílios pré-industriais. Logo que chegou a costa de Kyushu (ao sul do Japão), foi recepcionado por tropas dos Daimyos locais e padres jesuítas (os quais serviam de tradutores e missionários dentro do Japão na época) que pretendiam ver todos executados como piratas pelos japoneses, embora estivessem mais preocupados com a heresia (protestantismo) chegando ao Japão do que com os bens que eles possuíam.


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Durante o final do século XIV, os jesuítas tinham grande poder dentro dos círculos de liderança japoneses, principalmente no sul do país e na liderança do Exército da Coalização Ocidental, liderado pelos clãs do conselho de Osaka.

Os canhões e mosquetes do navio foram retirados, estes seriam mais tarde usados na batalha de Sekigahara pelo Exército/Coalizão do Leste, ou Exército Oriental comandado(a) por Tokugawa Ieiasu (o primeiro Shogun Tokugwa). Os tripulantes tornaram-se “convidados de honra” (prisioneiros com alguns luxos) no Castelo de Osaka, com exceção de Adams.
Mas o que aconteceu com ele?
Aquele que viria a ser conhecido como o samurai de olhos azuis, logo se tonaria conselheiro e até mesmo amigo pessoal de Ieyasu, dada sua capacidade linguística, estratégica e de natural antagonismo aos católicos. Sendo até mesmo condecorado como Hatamoto, uma honraria analogamente similar ao “Sir” Inglês, ou seja, deveria ser obtida por mérito ao invés de herança.


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Gravura de uma visão mais próxima da realidade do verdadeiro William Adams (realidade, por que você não pode ser tão maneira quanto a realidade? 

Não se sabe ao certo o porquê, talvez pela sua capacidade de aprender línguas rapidamente, falar tanto holandês quanto português ou ser experiente lidando com ambos, mas William Adams caiu nas graças de Tokugawa Ieyasu após ser aprisionado. O futuro Shogun logo ordenaria o inglês construir o primeiro navio japonês de design ocidental, um navio de guerra de 80 toneladas. Após ela ficar pronta, Tokugawa demandaria outra ainda maior, de 120 toneladas.
Após anos de serviço, em 1605, Adams seria congratulado como Hatamoto e Samurai, sendo permitido que carregasse espadas em solo japonês, honraria concedida apenas a esta casta. Ele também governaria uma propriedade com cerca de 80 servos na província de Miura e receberia o nome de Miura Anjin (三浦按針), ou Anjin, que significa “Navegador”. Além disso, também receberia algumas propriedades em Edo (era muito comum os grandes Daimyo terem seus domínios no interior e algumas propriedades dentro ou na periferia de grandes castelos, como os de Osaka e Edo, onde teriam um espaço de resolução de disputas e formação de alianças e acordos comerciais sem precisarem ficar indo para um lado e para o outro do país).


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Os navios do Selo Vermelho tinham a permissão especial de comercializar com outros países e trazer suas mercadorias ao Japão. Algo pensado caso houvesse uma futura ruptura com os impérios ocidentais.

Mesmo assim, Adams ainda tinha o desejo de voltar para sua terra natal e esposa. No entanto, Ieyasu tinha outros planos para ele, os quais incluíam sua permanência no Japão para sempre.Em 1611-12, Ieyasyu, agora Taishogun (o supremo comandandante de todas as forças militares do Japão), supostamente teria dito o seguinte a Adams:
“Você poderá deixar o Japão, Anjin. Mas não com sua cabeça”.
Após pelo menos uma década sob Tokugawa Ieyasu, William Adams contava com grande apoio e, supostamente, até mesmo sua amizade. Adams, ou Anjin, seu nome de samurai, era um dos principais conselheiros de Ieyasu, servindo como tradutor em diversas oportunidades, pois era fluente em Inglês, Holandês e Português.
Além disso, ele serviria como informante do xogunato dentro de empresas e missões diplomáticas ocidentais. Nessa altura, ele já era casado com uma japonesa, uma samurai com quem teve um casal filhos. Pouco é conhecido de sua vida familiar, mas sua esposa era provavelmente católica, no entanto, nenhuma maior tensão religiosa entre ambos é relatada (Adams/Anjin era protestante). No final das contas, sua relação com a esposa japonesa (ele também tinha uma na Inglaterra) foi descrita como muito amorosa por comerciantes e diplomatas ocidentais que os viram na época.


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Os serviços de tradução eram extremamente importantes na época e, antes de Adams, feitos quase exclusivamente pelos jesuítas.

Em 1613, Anjin conseguiu que um acordo fosse aprovado com os Britânicos e um posto comercial da Companhia das Índias Orientais seria aberto em Nagasaki. Mais tarde naquele ano, Ieyasy o permitira voltar para à Inglaterra, porém ele prontamente se recusou, seus motivos, no entanto, ficam à imaginação do leitor.
Entre 1614 e 1619, Anjin, com os famosos selos vermelhos do xogunato, segue em várias missões comerciais e diplomáticas em favor do Japão no continente asiático e no pacífico. Ele visitaria o reino do Sião (atual Tailândia), a região da Cochinchina (atual Vietnã), Formosa (atual Taiwan), as possessões espanholas nas Filipinas e o reino de Ryukyu (atual Okinawa).
Quase todos os progressos de Anjin para aproximação entre o Bakufu (como também é conhecido o regime do Xogum) e o ocidente começaram a se dissolver. Diferentemente de outros postos comerciais asiáticos, como Goa (na atual Índia), Mallaca (na atual Malásia) e Batávia (na atual Indonésia), Nagasaki, o principal porto comercial japonês na época, não era controlada pelos europeus, que tinham de se submeter às leis e costumes japoneses, mesmo quando achavam-os alienígenas e injustos. Com o tempo, atritos entre ambas as partes tornaram-se extremamente comuns.


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Embora não tenha sido ele a destruir o cristianismo no Japão, foi durante o xogunato de Tokugawa Ieyasu que as relações entre o Ocidente e o Japão se denegriram ao extremo.

Os interesses dos ocidentais logo ficaram claros para a liderança da parte oriental (ou norte) do Japão, liderados por Tokugawa Ieyasu. Com a contínua destruição da cultura dos povos conquistados e devastação predatória de seus recursos pelos europeus no Pacífico, principalmente no que viriam a ser as atuais Indonésia e Filipinas e vendo a trágica similaridade desses lugares com o Japão (os três são arquipélagos formados por milhares de ilhas, com economias muito focadas na agricultura e extrativismo e, na época, extremamente decentralizados em poder político e militar), os japoneses começaram a agir.
Mas longe de ser um plano secreto maligno, a corrosão das relações entre Japão e Ocidente levaria décadas e Anjin estaria no meio do turbilhão.
Anjin participaria de praticamente todos os acordos com nações europeias, no entanto, ele teria um papel muito menor do que se imagina, servindo muitas vezes como mero tradutor. Isso é percebido pelo fato dos portugueses, a quem Anjin odiava, terem também conseguido algumas liberdades no comércio, além dos neerlandeses terem algumas de suas demandas prontamente negadas.
Apesar disso, em 1614 Ieyasu declara o cristianismo novamente proibido no Japão e expulsa os missionários católicos, Toyotomi Hideyoshi teria feito o mesmo trinta anos antes e tal ordem fora prescrita pelo próprio Ieyasu. O que favoreceria os protestantes, dado que estes abertamente proclamavam sua não intenção em converter os japoneses, se eles também não tivessem tido várias de suas permissões suspensas. Os ingleses se retirariam do Japão dois anos depois.


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A Batalha de Sekigahara foi o ponto de inflexão da história japonesa, antes um país dividido entre centenas senhores da guerra, os Daimiyos, agora seria um país unificado sob um único líder, um cuja desdem pelo cristianismo, principalmente o católico, era abertamente declarado.

Em 1616, morre Tokugawa Ieyasu que, embora aposentado, ainda detinha grande poder na corte. Com a ascensão do herdeiro do Bakufu, Tokugawa Hideata, o sentimentos anticristãos chegaram níveis alarmantes. Mesmo que os protestantes veementemente se defendessem das acusações de que se engajavam em missionarismo assim como os católicos, já não havia muita diferenciação entre as duas religiões cristãs para os japoneses.
Os expurgos promovidos nas Filipinas pelos espanhóis não ajudariam em nada.
Com o início da colonização da América do Norte, os Britânicos abandonaram suas intenções no Japão. Os Portugueses, agora em vassalagem com a Espanha, também perdiam o fôlego econômico que precisavam para tornar o Japão tão atrativo. Não demoraria muito para que as medidas anticristãs ficassem cada vez mais severas e, tendo o Bakufu normalizado relações com a Coreia, negócios com ocidentais ficaram beira do impossível.
Ameaças de bombardeio da costa por navios espanhóis tiveram o efeito oposto ao desejado, com os líderes anti-cristãos ficando cada vez mais agressivos, não era incomum que multidões depredassem mosteiros e igrejas com a conivência das autoridades.


período espanhol nas filipinas
Os espanhóis não agiram nas Filipinas muito diferente do que fizeram nas Américas, o que, obviamente, ascendeu o alerta vermelho nas lideranças não cristãs do Japão.

Felizmente, o samurai ocidental não veria o pior.
Em 1620, aos 56 anos, morre Miura Anjin, nascido como William Adams, que fora uma figura tão pitoresca, habitaria o imaginário ocidental e seria uma das grandes figuras do orientalismo do século XIX. Pouco sabe-se sobre sua morte, especula-se de alguma doença não detectável na época. Esse era o fim da vida, porém início da lenda do Samurai de olhos azuis.
Embora na prática Adams tenha sido de relativa pequena contribuição para o ocidente e praticamente fora esquecido no Japão após sua morte, seu mito e simbolismo não podem ser negados. Ele foi tão importante nesse aspecto, que até mesmo seria citado na declaração de aliança entre os impérios Britânico e Japonês no início do século XX, sendo continuamente representado como uma ponte cultural e histórica entre os dois impérios insulares.


Hirado
A lápide de William Adams, ou Miura Anjin, existe até hoje em Hirado, Nagasaki. Local onde também se encontram as lápides de sua mulher e filhos, interessante notar que seu prestígio foi tão grande, que seu legado cristão sobreviveu aos expurgos e genocídio promovido pelo xogunato anos após sua morte.

Ao lado de outro personagem histórico, o oficial francês Jules Brunet (outro samurai ocidental), Adams ainda seria e, provavelmente, será uma figura de muito fascínio e “mitificação” tanto no ocidente como no Japão.
O que achou do texto, tem mais alguma informação? Críticas, dúvidas e sugestões são sempre bem-vindas e se você gostou do que leu, dá uma passada no blog, tenho certeza que vai encontrar algo que goste.
Referências e dicas de leitura:
  1. Dereck Massarela. William Adams / Miura Anjin: Man / Myth. 2000
  2. Ilza Veith. The Story of Will Adams. The Far Eastern Quarterly. 1945
  3. James Clavell. Shogun. 1975.
  4. The English Renaissance and the Far East: Cross-Cultural Encounters
  5. WILLIAM ADAMS AND EARLY ENGLISH ENTERPRISE IN JAPAN.
  6. http://saritimur.blogspot.com.br/2014/05/hirado-sightseeing.html>&gt
  7. http://wiki.samurai-archives.com/index.php?title=William_Adams>&gt

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